Dizer que a União Européia é uma família talvez seja um exagero simbólico. Os 27 países membros são desiguais, falam línguas diferentes e fazem questão de manter sua identidade cultural preservada. Mas a metáfora da união familiar se aplica ao bloco quando se pensa nas consequências que a crise acarreta para o projeto europeu.
A Alemanha, como provedora principal da família, exige que os demais membros apertem os cintos, ajustem as contas, deixem de gastar para salvar o elo mais recente e mais inovador que os une – a Zona do Euro. Tanto se festejou a criação da moeda única que não se previu dela sair, quem entrasse. Terá sido uma ilusão idealista pensar uma união monetária com porta de entrada, sem porta de saída?
O membro familiar mais devastado pela crise – a Grécia – não se importa em ser a ovelha negra da família, porém resiste a cumprir com o castigo imposto pelos que detém a chave do cofre das finanças familiares. Como na representação arquetípica junguiana, a Alemanha aparece como o pai, a Grécia como o filho rebelde, incompreendido, e a mãe, até então silente, surge das urnas e dos protestos das ruas…pedindo menos austeridade, menos bronca, e mais proteção aos fracos…
Reitero que a metáfora da família para a União Européia pode parecer exagerada, e forçar nos papéis e nos estereótipos. Mas é irresistível pensar que numa crise, a família precisa estar unida, os membros precisam se acertar ao máximo para seguir convivendo e, se não houver acordo, haverá separação. Na realidade, se a Grécia optar por sair do Euro – ou se o caminho da saída for apontado para ela – não haverá um abandono do país do seio familiar europeu. A Grécia continuará europeia, sem moeda única. O que se demandará – aí sim de toda a família e de seu síndico em Bruxelas – será uma nova Europa de dois andares. Um andar com Euro e outro sem.
O Reino Unido, com sua intocada libra, já vive no confortável andar dos sem-Euro, que foi construído e decorado pelos britânicos, avessos a idealismos monetários. Se os gregos realmente saírem do Euro criarão o precedente familiar de viver juntos, porém separados. Isso implicará um desafio coletivo para uma região que valoriza a integração como projeto de vida.
Indignados contra a crise, reunem-se em Praça de Madri, maio de 2012.







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